Os absurdos da administração do Mineirão continuam

Muito se tem falado dos absurdos envolvendo a licitação do Complexo do Maracanã. Porém, é preciso ampliar a discussão porque negociações e contratos suspeitos como esse se repetem em vários outros estados. Quando não na obra (como no caso do Mané Garrincha, em Brasília), os problemas acontecem nos editais de licitação para controle dos estádios. Esse é o grande problema do Mineirão. O caso dos contratos de Cruzeiro e Atlético com a Minas Arena, controladora do espaço, pode até parecer implicância clubística para os mais desavisados. Aliás, melhor para o governo e a administradora que as pessoas pensem assim. Mas esse angu tem muito mais caroço do que simplesmente rivalidade e a eterna briguinha cansativa entre os dirigentes dos dois maiores clubes de Minas.

mineirao

Obras no Mineirão foram terminadas com a antecedência esperada. Mas fica a dúvida: tudo é resultado de boa gestão ou o estádio vai gerar lucros exorbitantes para uns poucos?

A confusão que se tornou a venda de ingressos para o clássico de reinauguração do Mineirão reacende a história. Na verdade, tudo é de um absurdo sem tamanho e proporções. Para quem não entende a origem do problema, recomendo a leitura deste texto, publicado pelo jornal Estado de Minas ainda em março de 2012. Em suma, na licitação, a Minas Arena recebeu 25 anos de concessão para a exploração do estádio. O detalhe é que o contrato prevê o repasse de recursos do governo do estado à empresa pelo tempo total de concessão caso a margem operacional não atinja R$3,7 milhões por mês, o que SÓ é 8,8 vezes superior ao faturamento mensal que o Mineirão gerava para a Administração de Estádios de Minas Gerais (Ademg) antes da reforma (R$ 416 mil, segundo a reportagem do Estado de Minas).

O outro PEQUENO detalhe do contrato é a previsão do repasse do estado de R$ 400 milhões em 120 parcelas, R$ 3,3 milhões mensais, que começou agora em janeiro de 2013, com juros e correção, à Minas Arena. Esse é o valor que a empresa usou de financiamento do BNDES e que equivale a 57,8% do investimento da concessionária na reforma do estádio — o valor total é de R$ 691 milhões. Basicamente, para bom entendedor, dinheiro público foi investido na obra através de financiamento e agora dinheiro público (com correção) vai voltar para o bolso da concessionária para pagar o financiamento que ela havia feito para grande parte da reforma do Mineirão. É realmente uma parceria público-privada…pena que o termo não dê nome aos bois, algo como parceria 90% pública-10% privada.

Mas o ponto crucial (para entender a rusga e a necessidade da Minas Arena de fechar com os maiores clubes de Minas) fica bem clara em trecho da entrevista que o repórter Leonardo Augusto fez com o sócio-presidente da Minas Arena, Ricardo Barra, e que ele reproduz em parte na reportagem acima mencionada:

“A expectativa é de que a margem operacional seja ultrapassada. Tudo será uma questão de desenvolvimento do negócio. É por isso que temos de ter os clubes do nosso lado, para maximizar receitas e logicamente desonerar os cofres públicos. Dependendo do resultado, o estado pode até deixar de pagar e passar a ganhar”, argumenta Barra.

Nesse caso, com a margem operacional ultrapassada, aí o estado lucraria, já que o valor gerado além dos R$ 3,7 milhões por mês seria dividido entre concessionária e o governo de Minas. Mas é importante aqui entender porque é de interesse do próprio estado que Cruzeiro e Atlético fechem contratos com a Minas Arena: impedir o prejuízo previsto no contrato caso a margem operacional não seja alcançada (é realmente uma aposta de risco altíssima, como a matéria salienta). E claro, a Minas Arena só lucra. Em nenhum cenário previsto ela perde.

Quando Alexandre Kalil, presidente do Atlético, se recusou a aceitar o contrato oferecido pela Minas Arena e reclamou horrores das condições, muitos pensaram que se tratava de mimimi advindo do fato que a empresa já havia fechado com o Cruzeiro. Sou atleticana, devo deixar claro, mas como Kalil mesmo argumentou (talvez em um dos poucos momentos de lucidez), o edital previa isonomia de condições para os clubes. Logo, o problema aqui não é clubístico. O buraco é mais embaixo. Agora, o próprio contrato entre Cruzeiro e Minas Arena pode ser investigado pelo Ministério Público de Minas Gerais, já que as cláusulas não foram divulgadas publicamente e têm gerado uma séria de suspeitas. Sem contar a história que começou a correr (logo depois das reclamações de Alexandre Kalil) de que o Ministério Público de Minas iria pedir a quebra do sigilo bancário e fiscal do mandatário do Galo por suspeitas de enriquecimento ilícito — o que só me faz crer que até o Ministério Público tem sido usado/acionado quando bem convém por diferentes grupos com distintos interesses.

Por fim, tivemos ontem o início das vendas dos ingressos para o primeiro clássico mineiro de 2013 que será também o jogo de reinauguração do Gigante da Pampulha. Torcedores se aglomeravam em filas para adquirir os ingressos desde segunda. Nesta quinta, cruzeirenses depredaram a sede do clube, no Barro Preto e saquearam a loja Cruzeiro Mania, na região da Pampulha. Pela manhã, quando a venda in loco estava prevista para começar, um problema no sistema da Minas Arena atrasou o início das vendas para perto do meio-dia. Para mim, a desculpa da Minas Arena, de que o sistema de outra empresa — contratada por ela para a comercialização dos ingressos — havia saído do ar, é simplesmente inaceitável. Primeiro, existe uma série de suspeitas em torno do próprio contrato da concessionária com o governo do estado. Segundo, se eles contrataram uma empresa ineficiente é pura e completa responsabilidade deles. Terceiro, se a Outplan (empresa que vende os ingressos) teve problemas porque foram detectados “servidores fazendo milhares de acessos simultâneos ao site, de forma maliciosa” isso só comprova a incompetência da Minas Arena e seus fornecedores que não criaram um sistema minimamente seguro e instável. Por isso, fiz coro no Twitter com outros revoltados com o #VergonhaMinasArena. E o torcedor devia voltar a entoar o #CPIdoMineirão.

Enfim, me assusta o quanto o torcedor (que sim, políticos e empresários, é também um cidadão) é mal-tratado no Brasil. Se não por respeito, pelo menos por interesse comercial, a Minas Arena e outras empresas do mesmo tipo deveriam respeitá-lo um pouco mais. Não há dúvidas que empresas que controlam estádios no mundo inteiro são também companhias com fins lucrativos. Mas pelo menos o torcedor é mais bem tratado nesses lugares. No Brasil da Copa, o torcedor paga caro pela entrada para continuar a ser tratado como sempre foi: mal e porcamente.

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