Fanalytics: todo mundo de olho no fã de esporte

Mais material que não é assim tão novo, mas que merece atenção de quem tem interesse em esporte e tecnologia. Hoje, estava assistindo ao vídeo abaixo (em inglês e, infelizmente, sem legendas): é uma mesa redonda da 2012 MIT Sloan: Sport Analytics Conference. Basicamente, os participantes estão discutindo a importância do que eles chamam de “fanalytics” (junção das palavras fan + analytics) para as indústrias do esporte (incluindo aí as empresas de mídia).

Fanalytics é o termo que eles usam para análise do comportamento dos consumidores de esporte, ou, uso de ferramentas computacionais e dados referentes aos fãs para entender e predizer o comportamento dos torcedores/consumidores (sim, é mais ou menos a história de Moneyball só que com dados dos fãs). E, nesse painel, em particular, eles destacam a importância das platformas de mídia social, em especial Twitter e Facebook, como fonte de dados para esse tipo de análise. A perspectiva é claramente a da indústria esportiva, afinal essa é uma conferência que reúne em sua maioria profissionais ligados a esse ramo. Nessa mesa, vale ressaltar, estão John Walsh, vice-presidente e editor-executivo da ESPN; Jonathan Kraft, presidente do Grupo Kraft (não o de alimentos, mas o que atua no campo esportivo); Bill Simmons, colunista da ESPN;  Tim Brosnan, vice-presidente executivo da Major League Baseball; e Nathan Hubbard, CEO da Ticketmaster. Então, o objetivo nesse sentido é usar informações dos torcedores para prever o comportamento, melhorar os serviços e gerar lucro para as companhias.

Meu interesse em “sport fandom” não é da mesma natureza. É difícil não usar termos em inglês para discutir esses temas, mas, basicamente, fandom, que não tem uma boa tradução para o português, é um substantivo relativo à prática de ser fã. No meu caso, também estou interessada nas implicações do uso cotidiano de tecnologias de informação, sobretudo plataformas de mídia social, no “comportamento” dos fãs de esporte. Mas meu interesse está mais relacionado às mudanças culturais; em termos do significado que o próprio torcedor atribui para o “ser fã” e em como essas mudanças em termos de práticas modificam as próprias culturas em torno do esporte. Sobretudo, estou interessada nas comunidades digitais de fãs de esporte, em como elas se organizam e no conteúdo que os próprios fãs produzem. Por isso usei comportamento entre aspas, porque tal termo não é com frequência usado na área de humanas.

Mas, como ia dizendo, mesmo que a minha perspectiva seja diferente da abordagem de um profissional da indústria, as ideias discutidas mostram claramente como as mídias sociais não são apenas fonte de dados para análise, mas também modificam a) como a própria indústria se organiza e b) as práticas adotadas pelos fãs. Sobre esse assunto, ainda indico a leitura de Sport Beyond Television (2012), de David Rowe e Brett Hutchins. Nesse livro, os autores mesclam bem uma abordagem mais cultural, calcada porém em dados da indústria (a obra é resultado de entrevistas com profissionais de dentro da indústria). Basicamente, nesse livro, eles discutem como o modelo da difusão, fundamentado na TV, tem sido desafiado pelas novas tecnologias digitais. Os autores mostram como atores de dentro da indústria esportiva ainda estão receosos com tais mudanças e têm tentado manter o modelo do broadcasting, altamente rentável e centralizado.

Por essa mesa redonda, dá para perceber como esses agentes, que também são de dentro da indústria, já estão se adaptando a esse novo cenário, especialmente nos EUA. Do receio de diminuição das receitas e aumento de autonomia dos torcedores, os atores da indústria esportiva já começaram a contornar problemas gerados para o sistema pelo uso diário dessas tecnologias pelos fãs. Se antes fatores como vazamento de informações e riscos para direitos de imagem tiravam o sono de quem controla grande parte do dinheiro nesses mercados, hoje, a participação do fã tem sido monetarizada, virando receita ao invés de dor de cabeça para essas mesmas empresas.

Essa mesma conferência tem uma nova edição, marcada para o início de março, em Boston. Vale à pena conferir o site do evento.

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